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	<title>Ser ou Nonsense</title>
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	<description>mais uma ideia bizarra... é.</description>
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		<title>Meu pé de vento</title>
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		<pubDate>Sat, 24 Dec 2011 19:20:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bizarras</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[paz de espírito]]></category>
		<category><![CDATA[pé de vento]]></category>

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		<description><![CDATA[Considerava sinceramente que havia atingido um bom nível de paz interior. Mas, quando olhava para trás, entrevia um rastro de reticências que parecia dizer que algo ainda estava faltando. Como assim? Não era mais para você estar aí… — divagava, confusa (mas não muito). Alguns dias achava que só mesmo umas três outras vidas ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/12/pedeventoM.jpg"><img src="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/12/pedeventoM.jpg" alt="" title="pedeventoM" width="550" height="825" class="alignleft size-full wp-image-336" /></a></p>
<p>Considerava sinceramente que havia atingido um bom nível de paz interior. Mas, quando olhava para trás, entrevia um rastro de reticências que parecia dizer que algo ainda estava faltando.</p>
<p><em>Como assim? Não era mais para você estar aí…</em> — divagava, confusa (mas não muito).</p>
<p>Alguns dias achava que só mesmo umas três outras vidas ou um bom pé vento varreriam todas aquelas reticências insistentes para longe.<br />
Outros dias considerava que elas eram apenas um eco da confusão passada.</p>
<p>[barulho de ventania]</p>
<p>A saia levantou, deixando as pernas brancas à mostra. Lip cambaleou mas não caiu.<br />
O pé de vento calçava 43 e des&#8230;recalcou facilmente o rastro dos trios de pontos.</p>
<p>No céu, uma nuvem sorria.<br />
<em>Três outras vidas, o cacete.</em><br />
Ponto.<br />
</br></p>
<div>Ilustração: Luiz Duarte</div>
<p></br></p>
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		<title>A lágrima de deus</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Nov 2011 20:39:39 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bizarras</dc:creator>
				<category><![CDATA[Photoletra]]></category>
		<category><![CDATA[equilíbrio]]></category>
		<category><![CDATA[gota]]></category>
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		<description><![CDATA[— Como é que você consegue se equilibrar assim? — Ah… não sou eu… quem equilibra é a pedra… e a pétala. — Mas você pode avacalhar tudo… por descuido. E escorregar. — Só escorrego quando eu rio. — Rio? E o mar? — Bem… se a onda vier forte… — Não sei… equilibrar me [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/11/lagrima.jpg"><img src="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/11/lagrima.jpg" alt="" title="lagrima" width="550" height="319" class="alignleft size-full wp-image-326" /></a></p>
<p>— Como é que você consegue se equilibrar assim?<br />
— Ah… não sou eu… quem equilibra é a pedra… e a pétala.<br />
— Mas você pode avacalhar tudo… por descuido. E escorregar.<br />
— Só escorrego quando eu rio.<br />
— Rio? E o mar?<br />
— Bem… se a onda vier forte…<br />
— Não sei… equilibrar me parece bem improvável.<br />
— Não seja besta… apenas pouse… não tem como dar errado.<br />
— Mas eu sou apenas uma gota!<br />
— Então?! Você é exatamente tudo o que precisa ser.<br />
— …<br />
— Só não vale chorar.</p>
<p>[ploft]<br />
</br></p>
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		<title>Selvagem</title>
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		<pubDate>Fri, 28 Oct 2011 20:34:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bizarras</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[selvagem]]></category>

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		<description><![CDATA[Adorava arroz selvagem. Nem tanto pelo sabor, muito mais pela sonoridade. E pelo vazio quente entre as pernas que a palavra &#8216;selvagem&#8217; despertava nela.  Oh, Deus&#8230; Aconteceu de novo. Era ela quem tinha escrito aquilo&#8230; mas foi sem querer&#8230; Acontecia às vezes. Lip sentia-se paralisada por uma força invisível e, então, uma mão cadavérica — [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/selvagem.jpg"><img src="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/selvagem.jpg" alt="" title="selvagem" width="550" height="380" class="alignleft size-full wp-image-322" /></a></p>
<p>Adorava arroz selvagem. Nem tanto pelo sabor, muito mais pela sonoridade. E pelo vazio quente entre as pernas que a palavra &#8216;selvagem&#8217; despertava nela. <br />
Oh, Deus&#8230; Aconteceu de novo. Era ela quem tinha escrito aquilo&#8230; mas foi sem querer&#8230; Acontecia às vezes. Lip sentia-se paralisada por uma força invisível e, então, uma mão cadavérica — também invisível —, de unhas muito longas, tomava sua mão esquerda e a fazia escrever linhas terríveis. Era irresistível. <br />
Lip releu a frase escrita no papel e se sentiu indecente. Rabiscou com força por cima, amassou a folha branca e jogou no cesto de lixo. Não deixaria jamais alguém ler aquilo. Não ficava bem.<br />
</br><br />
<em>Ilustração de Luiz Duarte</em><br />
</br></p>
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		<title>In nomine Patris</title>
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		<pubDate>Sun, 23 Oct 2011 21:09:07 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bizarras</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[ghostwriter]]></category>
		<category><![CDATA[literatura]]></category>

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		<description><![CDATA[Aquele maldito sonho já estava dando-lhe nos nervos. Já acontecia há mais de ano. Todas as noites, sempre à mesma hora, 3:43 da manhã — podia ver marcado nos números vermelhos do rádio relógio —, acordava assustado sem conseguir entender seu significado. Era sempre igual: o envelope estampado era enfiado por baixo de sua porta [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aquele maldito sonho já estava dando-lhe nos nervos. Já acontecia há mais de ano. Todas as noites, sempre à mesma hora, 3:43 da manhã — podia ver marcado nos números vermelhos do rádio relógio —, acordava assustado sem conseguir entender seu significado.<br />
Era sempre igual: o envelope estampado era enfiado por baixo de sua porta e ele, idiota, sempre experimentava o mesmo sentimento de surpresa boa. Abaixava-se para pegar a correspondência e, então, subitamente toda a sala escurecia — a sensação era de cegueira temporária — e o envelope parecia transformar-se em algum pássaro arredio, escapando-lhe das mãos. Naquele momento, um voz levantava-se na escuridão: “Ainda não…”, avisava. Isso o fazia acordar suando. 3:43. Sempre igual. Dificilmente conseguia conciliar o sono de novo.<br />
Mais de um ano nesse ritmo já havia lhe destruído o humor e sua saúde também não estava boa. Os amigos — que eram poucos — notavam suas olheiras profundas, o abatimento e estranhavam seu ar distraído e olhar distante. “Acho que estamos perdendo Chalam”, dizia um. “Ele parece ter encontrado outro mundo”, acreditava outro. </p>
<p>Chalam B. ligou a tv e entregou-se à deprimente programação da alta madrugada. Zoltan, o cão vampiro de Drácula, é encontrado numa cripta sob terras romenas. De volta à vida, lê lápides vizinhas à procura de seu antigo dono. “Que pérola…”, murmurou Chalam para si mesmo. <em>Que salvação resta aos insones a não ser os apelos do trash?</em> No mesmo momento em que Zoltan arrebentava o telhado de uma casa atrás de sua vítima mas era afugentado pela luz do sol nascendo, Chalam B. também via o dia clarear por trás da cortina fina.<br />
Desligou a tv — adeus Zoltan — e desceu para fazer um café forte.</p>
<p><em>Salve Rainha, Mãe de Misericórdia, vida, doçura, esperança nossa, salve!<br />
A Vós bradamos os degredados filhos de Eva. A Vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas. Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei, e depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre. Ó clemente, ó piedosa, ó doce e sempre Virgem Maria. Rogai por nós Santa mãe de Deus, para que sejamos sempre livres do pecado, protegidos de todos os perigos e dignos das promessas de Cristo.</em></p>
<p>A ladainha da mãe podia ser ouvida da escada. A velha começava cedo. Terço na mão. Oito, às vezes até dez horas, implorando pelo perdão de Deus naquela cadeira de balanço no canto da sala. Alheia a tudo e a todos. Os olhos encovados parecem afundar-se para dentro das órbitas, como se recuassem diante do horror do mundo. <em>Salve Rainha, Mãe de Misericórdia…</em></p>
<p>E, então, ele viu. Ali, enfiado sob a porta. O envelope. Por um momento Chalam B. pensou que estava alucinando pela falta de sono. Mas não. Estava ali. O papel cor de creme com estampa de cruzes páteas num marrom-terra. Seu nome grafado na frente, letras pretas, em caligrafia bordada e cuidadosa. <em>Salve Rainha, Mãe de Misericórdia…</em> Finalmente teria a resposta?<br />
Com a carta na mão, temeu que, como no sonho, ela criasse asas. Bobagem. A sala não escureceu. Nada de voz. Sim, finalmente teria a resposta.</p>
<p></br><br />
<strong><em>Você, Chalam B., está convocado a assumir o posto de nº 343 da missão Escritura. Para tanto, compareça ainda hoje à Casa das Muitas Moradas, na Estrada de Santana, depois da curva do centauro e antes da Elevação Derradeira.<br />
Apresente-se antes do sol se pôr.</p>
<p>Dia 30 de novembro do ano da salvação da humanidade redimida de 2007.</p>
<p>			Holy-ghostwriter nº 342</p>
<p>P.S.: Esta convocação tem caráter irrevogável. Nem tente… você sabe. </em></strong></p>
<p></br></p>
<p>A princípio pensou que fosse alguma piada de um amigo sem noção. Mas, olhando melhor para a assinatura trêmula — Holy-ghostwriter nº 342 —, soube que era sério. Não sabia explicar o porquê. Simplesmente sentiu.<br />
Preferiu não adiar a tarefa. Queria entender logo que coisa era aquilo tudo. Os sonhos, a carta, essa convocação estapafúrdia. Procurou no Google “estrada de santana”. Mais de um milhão de resultados. Na busca avançada, eliminou a canção do Fagner e finalmente achou o que procurava. Clicando no primeiro resultado, um link o direcionou para o miraculoso Google Earth. A tal Estrada de Santana, no final das contas, ficava na região. Não conseguiu visualizar muitos detalhes do local porque o programa mostrava uma mancha negra no lugar determinado pelas coordenadas. Não faz mal. Dava para saber como chegar até lá, saindo da cidade pela rodovia sul e avançando 47 quilômetros até o Trevo da Incerteza. De lá, daria um jeito de pedir informação.</p>
<p>Forrou o estômago com um café feito às pressas e um pedaço de broa de milho feita na véspera pela mãe — <em>Salve Rainha, Mãe de Misericórdia…</em> — e botou o pé na estrada. Nem fez a barba. Que se dane.<br />
Com o trânsito leve daquela hora da manhã, chegou logo à saída sul da cidade e marcou a quilometragem no hodômetro. Exatos 47 quilômetros e estava no Trevo da Incerteza. Bifurcação.<br />
Agora se lembrava, o lugar não era de todo estranho. Fora muitas vezes ali na infância. Mas quanto tempo…<br />
Pegou a estrada da direita, a que subia. Não a estradinha da esquerda que passava pelo sítio de sua lembrança e ia dar no Clube Náutico. Esta ele conhecia e sabia que de Santana não tinha nada.<br />
Avançou morro acima. Estradinha de terra. Uma placa caindo aos pedaços dizia que ele estava certo: “Estrada de Santana”. Uns cinco quilômetros de coisa nenhuma e duas dúzias de curvas depois, o motor deu uma engasgada e morreu. Tentou dar a partida de novo. Em vão. Não pegava. “Só me faltava essa… o carro quebrar nesse fim de mundo”, praguejou.<br />
Tentou outras três vezes e desistiu. Saiu para o sol quente, enfiou o celular no bolso — como se tivesse sinal por ali —, trancou o carro e começou a caminhar. Pra frente. “Quem sabe já não está perto…”, disse a esperança antes do último suspiro.<br />
Era uma terra vazia. O que não era mato, era muro alto ou terreno abandonado. Seguiu andando. E suando.<br />
Não foi sem certa estranheza que percebeu a aproximação de um centauro. Naquele momento, Chalam chegou a duvidar se tinha realmente acordado ou se, na verdade, não estava ainda na cama sonhando.<br />
Deixou o pensamento de lado e observou o sujeito — meio cavalo, meio homem — que vinha trotando com ar amigável.<br />
“Bons-dias, forasteiro”, disse a criatura. “Perdido?”, perguntou.<br />
“É… mais ou menos… meu carro pifou”, socializou Chalam B.<br />
“Ah, terrível, terrível… mas previsível também. Por aqui motor não funciona de jeito nenhum. O jeito é apreciar a caminhada”, meio que explicou o centauro.<br />
“Presumo que aqui seja a curva do centauro. Estou certo?”<br />
“Meio óbvio, não acha?! Eu, cá, um centauro. Essa aqui uma curva… É só ligar os pontos”, debochou simpático.<br />
Chalam B. ignorou a gracinha: “Eu não pensava que centauros realmente existissem”.<br />
“Ora, que pouca fé. Já me viu tantas vezes. Não reconhece o lugar onde a natureza encontra o intelecto?”, filosofou a criatura.<br />
“Bem, até mais”, despediu-se Chalam achando que não tinha tempo para papos-cabeça naquele momento.<br />
“Ou não…”</p>
<p>Chalam seguiu seu caminho, querendo chegar logo à tal Casa das Muitas Moradas. Depois da curva do centauro, a paisagem ficou mais bonita, com fileiras de flores campestres nos acostamentos. Sentiu-se como um noivo a caminho do altar.<br />
Um pé de vento levantou redemoinhos de poeira da estrada. Ele protegeu os olhos e entreviu um sujeito arfando logo adiante. O coitado lutava para rolar uma pedra que devia ter umas duas vezes o seu tamanho.<br />
“Quer uma ajudinha?”, ofereceu Chalam.<br />
“Puxa, você não sabe como eu gostaria disso”, respondeu o homem.<br />
Chalam B. aproximou-se e começou a empurrar a pedrona também.<br />
Seguiram uns bons 500 metros até a estrada transformar-se numa subida muito íngreme.<br />
“Vamos ter de continuar morro acima?”, inquiriu Chalam, querendo tirar o corpo fora.<br />
“Ah, sim. É fundamental. Não posso parar de jeito nenhum”, determinou o homem.<br />
“Chega a ser perigoso. Não acha?”<br />
“Já estou acostumado. O medo faz parte do passado.”<br />
Subiram mudos para economizar energia. Passaram por um galpão caindo aos pedaços, por um hipopótamo sentado, pela entrada de uma bela alameda e por um homem limpando um canhão. Duas vezes Chalam pediu para pararem um pouco para recuperar o fôlego. O homem cedeu as duas vezes, sorrindo com o canto da boca.<br />
Lá em cima, aliviado, Chalam percebeu que o lugar era incrível. A estrada abria-se em um largo platô; grandes árvores faziam uma sombra perfeita. Uma placa de madeira indicava em letras maiúsculas: “Elevação Derradeira”. Tinha até um chafariz com um querubim esguichando água fresca. Perfeito. Ele bebeu um tanto e molhou um pouco a nuca. Dava uma vontade enorme de ficar por ali, deixar-se cair sob uma das árvores e descansar.<br />
O homem escorava a pedra com um braço e descansava o outro na cintura. Olhou cabreiro para Chalam. “Vai ficar aqui?”, quis saber.<br />
“Bem que queria ficar um pouco, mas estou com pressa. Preciso ir a um lugar. Aliás, o senhor bem podia me dizer se estou longe do endereço. Sabe onde fica a Casa das Muitas Moradas?”<br />
“Ora… não é que passamos por ela… bem ali…”, disse virando-se para apontar um local abaixo. E, então, num vacilo terrível, deixou a pedra escorregar. Olhou resignado a danada rolar todo o caminho de volta morro abaixo.<br />
“Oh, não”, lamentou Chalam.<br />
“Ah, não se importe. Isso sempre me acontece…”, consolou-se, “parece que vamos andar mais um pouco juntos”, concluiu.<br />
Puseram-se a descer a encosta. Chalam notou que, realmente, o homem não parecia lamentar muito ter de buscar a pedra e subir aquele morrão empurrando-a de novo. Passaram novamente pelo homem do canhão, que agora estava sentado fumando um cigarro de palha.<br />
“É aqui que o senhor entra”, indicou a entrada da alameda.<br />
“Bem, obrigado”, agradeceu Chalam, “boa sorte com a pedra. Desculpe não poder ajudar de novo.”<br />
“Tudo bem, faço isso sempre. Já estou acostumado”, disse o sujeito despedindo-se e seguindo caminho para o pé do morro.<br />
Chalam B. compadeceu-se por alguns segundos da situação do pobre coitado, mas logo deixou a piedade para trás. Apalpou a carta que trazia guardada no bolso da camisa. Precisava seguir seu destino.</p>
<p>A alameda parecia levar a um mundo à parte. Até o clima era fresco. No lugar da pirambeira, um suave declive. Pássaros faziam uma festa barulhenta. E agradável. Chalam queria apreciar o lugar e o momento, mas estava ansioso demais.<br />
A casa ficava cerca de 20 metros a partir da estrada. Depois de um portão alto de ferro trabalhado, a alameda alargava-se, dando lugar a um pátio circular com um jardim no centro. Chalam experimentou o portão, que cedeu facilmente. Não estava trancado. A construção à frente era enorme. Três andares, com telhado de várias águas. Nenhuma janela aberta, nenhum sinal de vida.<br />
Aproximou-se do pórtico, procurando a campainha. Um capacho imitava Jacó e sua visão da casa de Deus: <em>Terribilis est locus iste.</em><br />
“Apropriado”, murmurou Chalam.<br />
Antes que tivesse chance de alcançar a aldrava, viu a grande porta abrir-se e um homenzinho raquítico se esgueirar lá de dentro, com olhar assustado. Ele ajeitava os óculos fundo de garrafa e olhava para os lados, como se se certificasse de que não havia mais ninguém. “Já não era sem tempo. Venha, venha. Depressa”, chamou, puxando Chalam pelo braço.</p>
<p>Entraram e o homem trancou a porta atrás deles. Chalam esperava tudo, mas não estava preparado para o que viu ali. Livros, milhares deles, por toda a parte. As paredes estavam forradas até o teto de prateleiras e estas abarrotadas de volumes. Também tinha livros pelo chão, empilhados perto da porta e nos degraus da escadaria que se erguia bem à frente, no meio do salão.<br />
“Você deve gostar de ler…”, insinuou Chalam.<br />
“Não, não tenho tempo. Estou sempre ocupado demais”, retrucou o homem, ajeitando de novo os óculos. “Venha, venha. Não temos tempo a perder”, apressou.</p>
<p><a href="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/in-nomine-patris.jpg"><img src="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/in-nomine-patris.jpg" alt="" title="in-nomine-patris" width="550" height="786" class="alignleft size-full wp-image-278" /></a></p>
<p>O homenzinho o guiou escada acima e, no segundo andar, por um corredor escuro. Tudo estava igualmente coberto de livros. Chalam tentou ler alguns títulos, mas as lombadas só exibiam datas: 1578 volume XXVIII, versão 17; 1964, volume LII, versão 49. Estranho… Intercaladas com as pilhas de volumes variados — de couro, brochuras, espiralados —, muitas portas. Todas fechadas e identificadas por uma palavra diferente. Leu “refugo”, “revisões”, “campo de batalha”, “banco de idéias”. Quis perguntar o que guardava cada cômodo, mas achou melhor ficar quieto por enquanto.<br />
O corredor parecia não ter fim. Andaram sem parar por uns 15 minutos até o homem parar diante de uma porta identificada como “redação”.<br />
“Bem, chegamos”, anunciou o estranho, repetindo o cacoete de ajeitar os óculos. Tirou um molho de chaves do bolso da calça e procurou pela chave certa. “Vamos entrar”, disse abrindo a porta.<br />
Se Chalam pensava que nada mais ia surpreendê-lo, estava enganado. No lugar de mais um cômodo repleto de livros e papéis, o que encontrou foi um supermoderno escritório, com as paredes cobertas de monitores. Havia alguma coisa de dissonante naquilo tudo. O homenzinho destoava do ambiente de forma gritante, com seus trajes fora de moda e seu ar de século retrasado.<br />
“Bem…”, começou, “é aqui que você vai trabalhar”, anunciou.<br />
“Ôpa! Devagar”, protestou Chalam, “que história é essa?”<br />
“Você é Chalam B., não é?”<br />
“Sou, sim. Mas e você, quem é?”, quis saber.<br />
“Meu nome é Lorenzo e, como você, eu sou uma alma condenada”, foi a resposta do homem.</p>
<p>Chalam B. resolveu sentar. Algo lhe dizia que a partir daí as coisas iam ficar realmente estranhas.<br />
“Eu sempre esqueço que as pessoas não conhecem a história. Mas não me culpe… tanto tempo aqui, sabendo de tudo, escrevendo tudo… é normal que eu misture um pouco as realidades”, divagou Lorenzo. “Vou explicar tudo.”</p>
<p>“No início era o verbo, e o verbo estava com Deus&#8230;”, começou. “Eu sei. Parece clichê, eu sei. Mas escute. No início era o verbo, e o verbo estava com Deus. E, então, Ele delegou…<br />
Pessoalmente, acho que os seis dias foram o bastante para ele. Toda a Criação, tanto planejamento, preparar todo o escopo e dar o startup. Enfim, acho que a euforia inicial se foi no sétimo dia. Ele simplesmente se cansou. Ou, talvez, delegar fizesse parte do Seu plano o tempo todo. Não sei, honestamente. Só posso especular a esse respeito. Mas… retomando… Ele escreveu o primeiro Livro, todo o grande início — o surgimento dos céus, da terra, o fiat lux, a criação do homem e da mulher, o crescei e multiplicai-vos etc etc, enfim, toda aquela coisa que a gente costuma chamar de Gênesis. E, então, quando descansou no sétimo dia, escreveu o ‘Livro Cor-de-Rosa’…”<br />
“’Livro Cor-de-Rosa’? O que tinha nele?”, perguntou Chalam curioso.<br />
“Bem, é um livro secreto. Fica escondido a plena vista num lugar que não se pode ver. Ninguém sabe dele.”<br />
“Como assim?”, quis saber Chalam.<br />
“Isso não é importante agora. Por enquanto, a respeito do ‘Livro Cor-de-Rosa’, você só precisa saber que é, ao mesmo tempo, um livro de segredos ancestrais e um manual de sobrevivência. Enfim… continuando… no sétimo dia, depois de escrever o ‘Livro Cor-de-Rosa’, Deus aproveitou para delegar a tarefa de escrever a História ao primeiro holy-ghostwriter”, Lorenzo interrompeu-se e deu uma risadinha. “Não sei se foi o primeiro escritor ou o próprio Deus que deu nome ao cargo mas, convenhamos, é muito apropriado… hahaha… holy-ghostwriter… muito espirituoso… Onde eu estava? Ah, sim, então. Ele retirou-se solenemente e o primeiro escritor começou a fazer a roda girar. Há quem diga que Deus está olhando o tempo todo, fiscalizando ou simplesmente observando. Não sei. Só sei que temos autonomia completa. Nada tira o poder embutido no cargo de holy-ghostwriter. E já foram 342”, pontuou sério.<br />
Embasbacado, Chalam resolveu intervir: “Espere. Deixe ver se entendi direito. Tudo isso, essa coisa que a gente chama de vida, de História, está o tempo todo sendo escrita por um simples mortal…”<br />
“Uma sucessão deles”, interrompeu Lorenzo.<br />
“Que seja… por uma sucessão de simples mortais. Tudo o que todo o mundo faz…”<br />
“Faz, pensa, deseja e sonha”, interrompeu o nº 342 novamente.<br />
“… tudo o que nós fazemos, pensamos… meu deus… tudo o que desejamos ou sonhamos… tudo isso está sendo definido por um maldito ghostwriter?”<br />
“Pssss. Não blasfeme aqui. Não tenho nada de maldito. Nenhum antes de mim teve. Fazemos o melhor que podemos, dadas as circunstâncias”, protestou Lorenzo.<br />
“Mas, e o livre arbítrio?”, quis saber Chalam. “Quer dizer que somos simples personagens nas mãos e na mente de um aspirante a escritor.”<br />
“Aspirante, não. Escritor de fato, não é?!&#8230;”<br />
Chalam caminhava pela sala. Seria possível? Deveria mesmo acreditar nesse doido de carteirinha? Não estaria ele mesmo louco também por sequer cogitar dar crédito a uma história mirabolante dessas?<br />
Lorenzo notou a hesitação. “É normal duvidar no início. Eu me lembro de como fiquei desconfiado quando cheguei aqui, chamado da mesma forma que você. Primeiro debochei, depois ri, mas no final acabei cedendo… porque é verdade. Venha. Me acompanhe. Vamos dar uma volta pela Casa e você vai acreditar”, disse isso já abrindo a porta.</p>
<p>Estavam novamente no corredor, caminhando entre livros. Lorenzo esticou o braço e puxou um volume. “Este aqui. 1945 volume CLVI, versão 1.” Soprou a poeira da capa, abriu e começou a ler: “6 de Agosto: a 500 metros de altitude no centro de Hiroshima, Japão, a explosão de uma bomba atômica deixa uma nuvem em forma de cogumelo de 18 km de altura…”<br />
“Isso não prova nada. Qualquer livro de história conta isso”, rebateu Chalam.<br />
Lorenzo era paciente. Guardou aquele livro e puxou outro da estante mais adiante. “Esse outro, então. 1986 volume XIX, versão 2. Chalam B. dirige-se para os fundos da casa. Leva nas mãos um embrulho de papel pardo. Pensa em quanto mal poderia causar se quisesse. Treme. A chuva fina cola a roupa no corpo. Deve continuar. No escuro, deposita o pacote no chão e começa a cavar…”<br />
“Pare”, interrompeu Chalam, “já basta. Eu acredito. Eu acredito”, disse soluçando. “Como é possível? Só eu sei disso. Só eu…”, gritava agora.<br />
“Eu escrevi isso, Chalam. Eu”, respondeu o homem, colocando o braço em volta dele e levando-o mais adiante no corredor.<br />
Caminharam em silêncio alguns minutos. Quando sentiu que Chalam estava mais calmo, Lorenzo continuou: “Essa casa é o centro de tudo. Tudo é escrito aqui e tudo o que o holy-ghostwriter precisa encontra aqui. Todos esses cômodos… são unidades de suporte. Essa casa tem muitas moradas. Os milhares de quartos são para você fazer experimentações, testar idéias, construir personagens. Ah, e teste bem as idéias antes de escrevê-las. Uma vez escritas, já são fato. Preste atenção”, olhou sério para Chalam, “é muito importante não se esquecer disso. Pense e teste antes. Avalie as conseqüências. Se as idéias não prestarem, descarte. Não escreva apenas como exercício literário. Não fazemos literatura aqui. Fazemos Escritura. Já tivemos desgraça demais com idéias mal-acabadas e histórias mal escritas”, advertiu Lorenzo.</p>
<p>Chalam estava dividido. Queria saber tudo. Queria entender. Mas, ao mesmo tempo, queria fugir dali. Esquecer.<br />
“Como os ghostwriters são escolhidos? Qual é o critério?”, perguntou, cedendo à curiosidade de saber mais.<br />
“Bem, cada um escolhe seu sucessor. Do jeito que lhe convier. É uma escolha pessoal. Pode ser qualquer um”, explicou Lorenzo.<br />
“Homens, mulheres… qualquer um? Não tem idade certa? Nada?”<br />
“Como eu disse, é uma escolha do titular. Já tivemos 257 holy-ghostwriters homens. 85 mulheres. Ah… às vezes eu acho que devíamos ter tido mais mulheres. Elas escrevem histórias lindas. A Renascença inteira foi escrita por uma holy-ghostwriter mulher, sabia?! Mas elas podem escrever histórias terríveis também. É imprevisível. São como Deus de TPM. Também foi uma mulher quem escreveu a Inquisição…”</p>
<p>Naquele momento, chegaram a uma sala de porta dupla. Parecia especial.<br />
“Quero que você veja isto”, chamou Lorenzo. “Aqui ficam os registros akáshicos”, contou.<br />
“Registros o quê?”, perguntou Chalam entrando na ampla sala. Milhares de imagens holográficas flutuavam no ar, dançando de um lado para o outro. Viu flashes da sua infância encontrarem momentos da história antiga. Viu Napoleão esbarrando na sua tia Eneida e depois em Marilyn Monroe.<br />
“Registros akáshicos são impressões de tudo o que já aconteceu. Estas impressões permanecem gravadas como testemunho histórico dos acontecimentos, na forma de registros etéricos. É como se fosse a memória da História. É aqui que o Verbo Divino se propaga”, explicou Lorenzo.<br />
“É maravilhoso”, deslumbrou-se Chalam.<br />
“Não é mesmo?!”</p>
<p>De volta à redação, Chalam deu-se conta de uma coisa: “Espere, todo esse tempo em que estivemos conversando, o que aconteceu com a História? Você não deveria estar o tempo todo escrevendo?”<br />
“Ah, não. O tempo é diferente aqui dentro. Caso contrário, eu nem poderia ir ao banheiro, não é mesmo? E, além do mais, existe sempre a possibilidade de se repetir alguns trechos. Todo ghostwriter faz isso. Às vezes, por exemplo, perdemos a inspiração. Então repetimos alguns trechos já escritos. Nada demais. Acontece o tempo todo”, explicou Lorenzo.<br />
“E, de uma maneira geral, você diria que é um trabalho bom? Quer dizer, você é feliz aqui?”<br />
“Veja bem, é uma honra, certo? Nenhum holy-ghostwriter em sã consciência deveria reclamar. Escrever em nome Dele é a maior de todas as honras. Mas devo dizer, nem tudo são flores. Também enfrentamos espinhos. No meu caso, o que mais incomoda são os sussurros dos mortos me acusando por palavras mal escritas. Esfregando-se em mim, me rodeando, gelados e acusadores.”<br />
Notou que Chalam havia se retraído ante aquela confissão súbita e tentou consertar: “Mas isso não se compara à honra que o trabalho traz. Não se compara, não”, arrematou, mas sentiu que tinha colocado tudo a perder.<br />
“Por que você me escolheu?”<br />
“Ora, por vários motivos. Por vários. Eu escrevi você para me substituir. Eu planejei tudo desde o seu nascimento”, respondeu, piorando a situação.<br />
“Mas e se eu não quiser aceitar o cargo? Passou pela sua cabeça que eu posso não querer, que eu posso estar satisfeito com a minha vida e não querer me enfiar aqui nessa casa, sozinho?”, desafiou Chalam.</p>
<p>“Não me parece que sua vida seja tão atraente assim…”, começou Lorenzo, “me interrompa se eu estiver enganado. Você é um escritor frustrado, que passa boa parte do dia escrevendo minibiografias de famosos prestes a morrer para aquele jornalzinho de quinta ter material pronto quando alguma celebridade bate as botas. Quando não está ocupado com esse trabalho brilhante, produz resumos de livros para vestibulandos preguiçosos. Tarefa que executa muitíssimo bem porque é um escritor bem conciso e objetivo.<br />
Não tem um relacionamento sério há — o quê? — sete anos… E, ah, não me deixe esquecer, para completar, ainda mora com a mãe, na sua idade…”, Lorenzo tomou fôlego e continuou, “não costuma se preocupar com o estado atual da sua vida porque tem a ilusão de que amanhã tudo vai mudar, que vai escrever um livro inacreditavelmente maravilhoso, que vai virar um bestseller e transformar você num Stephen King… hummm, esqueci alguma coisa?”, finalizou.</p>
<p>Chalam levantou-se. “Basta!”, gritou. “Quem você pensa que é pra me… eu sei, sei que minha mente às vezes é vaga e minha carne… quase sempre é fraca. Mas, sou humano afinal. Tenho direito”, indignou-se. “Além do mais se eu for ghostwriter de Deus, eu vou abreviar a História. Eu resumo tudo!”, arrematou.<br />
“Não faz mal. Faz até bem. Isso o faz perfeito para o trabalho. Não tem nada pior que um Deus prolixo”, animou-se Lorenzo.<br />
Chalam pareceu considerar a ideia por um momento. Como era um homem de poucas necessidades, era também um homem de poucas expectativas, por isso não teria grande sofrimento se escolhesse morrer para o mundo.<br />
“Por quanto tempo eu teria que ficar aqui?”<br />
“Varia. Eu ocupo este posto há 227 anos. Mas já teve caso de holy-ghostwriters tão empenhados que permaneceram trabalhando quase mil anos”, contou o nº 342. “Você vai definir seu ritmo e, quando quiser sair, deve primeiro encontrar um substituto, é claro. O cargo não pode ficar vazio nem por um segundo. Jamais.”<br />
“Se eu não conseguir convencer outra pessoa a ocupar meu lugar, torna-se um caminho sem volta, então…”, compreendeu Chalam. “Não, sinto muito… sinto muito mesmo, mas vou preferir voltar para a minha mediocridade… não acho que eu conseguiria viver sabendo que não posso voltar atrás… sinto muito…”, disse meio baixinho, já se encaminhando para a porta.<br />
“Nããããããããoooooooo. Você não pode fazer isso comigo. Estou preso aqui há 227 anos. Eu mereço um descanso. Eu mereço sair…”, vociferou Lorenzo, transtornado. “Volte aqui!!! Volte aqui!!! Eu escrevi você…”<br />
Chalam já ia longe pelo corredor quando ouviu a ameaça: “Você vai ver o que eu vou escrever… você vai lamentar… vou acabar com a sua vida…”</p>
<p>Chalam B. era um homem condenado. Seria de todo modo. Se ficasse. Ou se fosse embora. Preferiu ir. Se tivesse sorte, em pouco tempo o dia de hoje seria uma lembrança distante ou, se tivesse mais sorte ainda, seria apenas a lembrança de um sonho. E, se estivesse na ignorância, não saberia mais que estava condenado…<br />
Na estrada, na saída da alameda, o hipopótamo que havia visto mais cedo olhava pra ele e sorria.<br />
Chalam B., o homem que um dia foi condenado, montou no bicho e partiu dali. Iria para qualquer lugar, para os terços, quartos ou quintos dos infernos. E não voltaria nunca mais à Casa das Muitas Moradas.<br />
</br></p>
<div>Ilustração: Luiz Duarte</div>
<p></br></p>
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		<title>O transformador</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Oct 2011 19:42:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bizarras</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[sagui]]></category>

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		<description><![CDATA[O sagui Shakespeare não usava patins quando deslizava nos fios elétricos da Urca. Gostava de poder sentir o atrito metálico sob os pezinhos. Não se importava com o risco de choques ou de morrer eletrocutado. Afinal, já nasceu pronto para morrer. — Por que você só fica aí parado? Vamos deslizar até aquela outra árvore. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/sagui550px.jpg"><img src="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/sagui550px.jpg" alt="" title="sagui550px" width="550" height="757" class="alignleft size-full wp-image-273" /></a></p>
<p>O sagui Shakespeare não usava patins quando deslizava nos fios elétricos da Urca. Gostava de poder sentir o atrito metálico sob os pezinhos. Não se importava com o risco de choques ou de morrer eletrocutado. Afinal, já nasceu pronto para morrer.</p>
<p>— Por que você só fica aí parado? Vamos deslizar até aquela outra árvore. Tem frutas ótimas lá.<br />
[silêncio]<br />
— Ou poderíamos descer e passar lá para o outro lado da rua. Já fez travessia radical entre carros?<br />
[silêncio]<br />
— Que falta de educação… Poderia ao menos responder alguma coisa…<br />
[Não posso, seu imbecil. Eu sou um transformador. Não está vendo? Transformadores não falam.]<br />
— Oh! Eu poderia jurar que você era um urubu. Desculpe-me, sou flamenguista e flamenguistas enxergam urubus em tudo.<br />
[Aff…]</p>
<p>Shakespeare começou a soluçar.</p>
<p>[Por que está chorando, menino?]<br />
— Eu choro desde que nasci. Todo mundo chora quando nasce. <em>Choramos ao nascer porque chegamos a este imenso cenário de dementes.</em> E depois que começamos, fica difícil parar.<br />
[Ora, não seja bobo. Supere essa dor. Que bobagem.]<br />
— <em>Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.</em><br />
[Bem… talvez você esteja certo. Ainda bem que eu não preciso pensar.]</p>
<p>Dizendo isso, o transformador tomou a forma primeiro de um urubu e logo em seguida transformou-se em centenas de bolhas de sabão e espalhou-se por todo o quarteirão.<br />
Não era nada sobrenatural. Afinal, era um transformador e apenas cumpria sua natureza.</p>
<div>Ilustração: Luiz Duarte</div>
<p></br><br />
- &#8211; - &#8211; - &#8211; - &#8211; - &#8211; - &#8211; - &#8211; - &#8211; - &#8211; - &#8211; - &#8211; - </p>
<p><strong>NOTA DA AUTORA</strong><br />
A presença alarmante de saguis nas áreas urbanas de várias regiões brasileiras é um grande problema ambiental. Eles se colocam em risco vindo para as cidades (podem ser eletrocutados ou atropelados) e também podem colocar os humanos em risco (transmitindo vários vírus, como o da herpes e da raiva, além de serem um reservatório de febre amarela).<br />
O causador desse desequilíbrio ambiental, obviamente, somos nós.<br />
Entenda a natureza do problema lendo este <a href="http://www.pea.org.br/news/noticias01.asp?noticia=3864" title="Link PEA" target="_blank">texto da PEA</a>.<br />
</br></p>
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		<title>Brocolândia</title>
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		<pubDate>Mon, 10 Oct 2011 19:29:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bizarras</dc:creator>
				<category><![CDATA[Photoletra]]></category>

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		<description><![CDATA[B1: Não é fácil. B2: Nunca foi. B1: Nunca será? B2: A-lá o vento… vem vindo… segura, berenice. B1: aimeudellz&#8230; [Passa o vento como se não houvesse amanhã, descabelando B2] B2: U-hu. Pronto, me leva, me come. Tô pronto. Obs.: B1 é o da direita. Nasceram ao contrário. PHOTOLETRA]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/socotra.jpg"><img src="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/socotra.jpg" alt="" title="socotra" width="550" height="365" class="alignleft size-full wp-image-267" /></a></p>
<p>B1: Não é fácil.<br />
B2: Nunca foi.<br />
B1: Nunca será?<br />
B2: A-lá o vento… vem vindo… segura, berenice.<br />
B1: aimeudellz&#8230;<br />
<em>[Passa o vento como se não houvesse amanhã, descabelando B2]</em><br />
B2: U-hu. Pronto, me leva, me come. Tô pronto.</p>
<p><em>Obs.: B1 é o da direita. Nasceram ao contrário.</em><br />
</br><br />
</br><br />
<strong>PHOTOLETRA <------- foto que se casa com texto alheio ou texto produzido sobre imagem alheia. Ou os dois.</strong></p>
<p>Texto totalmente estapafúrdio em cima de foto que Stefan Geens fez das Dragon&#8217;s Blood Trees, Arquipélago de Socotra, Iêmen.<br />
</br></p>
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		<title>Segredos pelo ralo</title>
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		<pubDate>Thu, 06 Oct 2011 17:50:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bizarras</dc:creator>
				<category><![CDATA[Photoletra]]></category>
		<category><![CDATA[Nedko Solakov]]></category>
		<category><![CDATA[photoletra]]></category>

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		<description><![CDATA[O cano desemboca no tapete da sala. Não debaixo do tapete. Em cima. Os segredos empapam tudo e não se pode varrer nada pra debaixo do tapete. E fica, então, tudo à mostra. Segredos ex-postos. Ex-segredos. PHOTOLETRA]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/ralo-550.jpg"><img src="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/ralo-550.jpg" alt="" title="ralo-550" width="550" height="413" class="alignleft size-full wp-image-259" /></a></p>
<p>O cano desemboca no tapete da sala. Não debaixo do tapete. Em cima.<br />
Os segredos empapam tudo e não se pode varrer nada pra debaixo do tapete.<br />
E fica, então, tudo à mostra. Segredos ex-postos. Ex-segredos.<br />
</br><br />
</br><br />
<strong>PHOTOLETRA <------- foto que se casa com texto alheio ou texto produzido sobre imagem alheia. Ou os dois.</strong></p>
<p>O texto acima é uma leitura livre e pessoal (e portanto não-oficial) do trabalho &#8220;A (not so) White Cube&#8221; (2006) do artista búlgaro Nedko Solakov (1957-).<br />
Conheça mais sobre Solakov no <a href="http://nedkosolakov.net/" title="Site de Solakov" target="_blank">site do artista</a>.<br />
</br></p>
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		<item>
		<title>A coisidade da coisa ou… foi-se um bago.</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Oct 2011 21:13:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bizarras</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[das ding]]></category>

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		<description><![CDATA[Aproximou-se do homem que gritava para uma enorme bola flutuante: — Desça já daí! Não me venha com gracinhas logo agora. — Que coisa é essa? — Coisa? Que coisa? — Essa bola enorme aí flutuando? — Ah, é meu bago esquerdo. Fugiu faz um tempo. Desde então em venho rolando o danado morro acima, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/bago.jpg"><img src="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/10/bago.jpg" alt="" title="bago" width="550" height="825" class="alignleft size-full wp-image-251" /></a></p>
<p>Aproximou-se do homem que gritava para uma enorme bola flutuante:<br />
— Desça já daí! Não me venha com gracinhas logo agora.<br />
<em>— Que coisa é essa?</em><br />
— Coisa? Que coisa?<br />
<em>— Essa bola enorme aí flutuando?</em><br />
— Ah, é meu bago esquerdo. Fugiu faz um tempo. Desde então em venho rolando o danado morro acima, mas ele sempre escorrega e vai parar lá embaixo de novo.<br />
<em>— Seu bago esquerdo?</em><br />
— Ou direito. Já não sei. O que sobrou deslocou-se para o meio do saco. Entende, né…<br />
<em>— Não, não entendo de bagos. Sinto muito.</em><br />
— Como não?! Todo homem entende de bagos.<br />
<em>— É que não sou homem. Apenas me disfarço, vestindo-me como um.</em><br />
— Ah… nem reparei. Tá dando certo.<br />
<em>— Mas… me explique direito: como alguém pode perder um bago?</em><br />
— Oras… se até o paraíso foi perdido, por que não seria também meu bago?! Por quê? Me diga.<br />
<em>— Bem… é que me parece loucura isso.</em><br />
— Se lhe parece loucura, então você entendeu.<br />
<em>— E por que ele está flutuando acima de nossas cabeças agora? Por que não rolou morro abaixo?</em><br />
— Ah, precisamente… por quê? por quê?<br />
<em>— Acho melhor o senhor deixá-lo em paz… ele pode cair na sua cabeça e acabar lhe matando.</em><br />
— Morrer é o menor dos meus problemas&#8230;<br />
<em>— É verdade. Melhor morrer do que viver sem o bago direito.</em><br />
— Esquerdo.<br />
<em>— Ah, é o esquerdo afinal?</em><br />
— Talvez. Já disse que não me lembro.<br />
<em>— Tudo bem… lembranças entulham a vida.</em></p>
<p>De cima, a grande bola olhava para os dois abrindo sua boca enorme.</p>
<p>— Acho que não estou me sentindo bem…<br />
<em>— O senhor está passando mal? Quer que chame um médico?</em><br />
— Não sei se é doença… é um aperto vazio aqui no peito… quer dizer, começa no peito e vai para o saco, e volta.<br />
<em>— Ah, imagino que seja angústia. Sinto muito.</em><br />
— Angústia&#8230; em francês angoisse, em inglês anguish, em grego αγωνία, em tcheco úzkost, em japonês 苦悩.<br />
<em>— É.</em></p>
<p>O homem estava inconsolável.</p>
<p><em>— Acho que o senhor sublimou seu bago.</em><br />
— Nonsense! Por que eu faria uma bobagem dessas?!<br />
<em>— Bem… me parece óbvio&#8230; porque somos feitos de carne e de medo.</em></p>
<p>O homem olhou com desdém, como quem diz: &#8220;— vai embora, se faz favor…&#8221;</p>
<p>No instante seguinte, a grande bola já não estava mais lá.</p>
<p>— Onde está? Pra onde foi? Deus… — suplicou o homem desesperadamente.<br />
<em>— Deixa pra lá… não era real.</em><br />
— Não era?<br />
<em>— Não sei. Talvez.</em></p>
<p>E ficaram ali: a terra, o céu, os dois mortais e aquela enorme presença da ausência do bago.<br />
Ao longe, um sino dobrava: das ding, ding, ding… ding… ding&#8230;<br />
</br></p>
<div>Ilustração: Luiz Duarte</div>
<p></br></p>
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		<item>
		<title>A louca que morava no alto do muro</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Sep 2011 00:31:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bizarras</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[loucura]]></category>

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		<description><![CDATA[Era muito louca a louca que morava no alto do muro. Lá de cima de seu pedestal de 50 metros, ela podia ver tudo o que acontecia com o povo que vivia no chão. E, por isso, todos temiam muitíssimo a louca que morava no alto do muro.   Às vezes ela sentava-se na beira, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/09/loucaSON.jpg"><img src="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/09/loucaSON.jpg" alt="" title="A louca que morava no alto do muro, ilustração de Luiz Duarte" width="550" height="825" class="alignleft size-full wp-image-247" /></a></p>
<p>Era muito louca a louca que morava no alto do muro. Lá de cima de seu pedestal de 50 metros, ela podia ver tudo o que acontecia com o povo que vivia no chão. E, por isso, todos temiam muitíssimo a louca que morava no alto do muro.  </p>
<p>Às vezes ela sentava-se na beira, balançando as pernas, e dizendo coisas perigosas do tipo &#8220;entre os desejos e as realizações destes transcorre toda a vida humana&#8221; ou &#8220;um insulto supera qualquer argumento&#8221;. Nesses momentos, ela aproveitava para atirar moedas de chocolate Pan para as almas perdidas do chão.  </p>
<p>À noite, quando o povo do chão dormia e sonhava, a casa da louca era palco de festas incríveis. Muita gente famosa foi vista por lá. Zarathustra, David Copperfield e, uma vez, até um faraó maldito. No final das festas, invariavelmente, a louca corria pra lá e pra cá — sua imagem ficava difusa —, soltando faíscas e notas agudas. Era impossível distinguir convulsões de orgasmos.<br />
 <br />
Certa vez quase pulou de cabeça a louca. Mas adiou.  </p>
<p>Era muito sábia a louca que morava no alto do muro.<br />
</br></p>
<div>Ilustração: Luiz Duarte (<a href="http://www.twitter.com/meinkaffee" title="TT do ilustrador" target="_blank">@MeinKaffee</a>)</div>
<p></br></p>
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		<item>
		<title>Tapotupotu</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Sep 2011 20:31:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>bizarras</dc:creator>
				<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[liberdade]]></category>
		<category><![CDATA[tapotupotu]]></category>

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		<description><![CDATA[Deitado na areia da praia de Tapotupotu, M. sentia uma inveja da porra do céu infinito acima dele. — Sartre, seu besta, você não sabe de nada… — pensava. O barulho das ondas do mar parecia concordar. Assim lhe parecia. — Estou condenado a ser livre? — gritou para o céu. — Tá, pô. — [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Deitado na areia da praia de Tapotupotu, M. sentia uma inveja da porra do céu infinito acima dele.<br />
— Sartre, seu besta, você não sabe de nada… — pensava.<br />
O barulho das ondas do mar parecia concordar. Assim lhe parecia.<br />
— Estou condenado a ser livre? — gritou para o céu.<br />
— Tá, pô. — a resposta veio de cima… seria o céu falando?! não sabia.<br />
— Como posso acreditar nisso? Olhando daqui, você, seu céu feladaputa, me parece o único livre. É.<br />
— Eu? — perguntou o céu (que, pela surpresa, nunca devia ter pensado nisso).<br />
— É. Tu, pô. Tu.</p>
<p>O barulho das ondas abafou a conversa. Ninguém sabia o que era liberdade. Então uma conversa desse tipo não fazia o menor sentido. É.</p>
<p><a href="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/09/tapotupotu.jpg"><img src="http://serounonsense.com.br/wp-content/uploads/2011/09/tapotupotu.jpg" alt="" title="tapotupotu" width="550" height="550" class="alignleft size-full wp-image-240" /></a></p>
<div>Foto: Tapotupotu, Nova Zelândia, por Mateus Rangel (<a href="http://www.twitter.com/mateusrangelbr" target="_blank">@mateusrangelbr</a>)</div>
<p></br></p>
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